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Pescado de valor comercial alto transforma vidas

Analysis

Observamos com agrado os comerciantes conquistando clientes com pescado de boa qualidade exposto durante as feiras. Com isto expandem seu negócio quer por número de clientes quer por mercados. Já 48 dos comerciante fornecem seus produtos a clientes fixos – restaurantes, estabelecimento de processamento, hotéis e singulares. Encurtam assim e a seu favor a cadeia de valor do pescado.

A pesca em Moçambique desempenha um papel importante na economia familiar e nacional, pois é fonte de alimento, emprego, entrada de divisas e outros. No concernente à pesca artesanal, ainda é caracterizada pelo uso de meios e técnicas rudimentares a destacar o uso de pequenas embarcações e o arrasto da rede pela força humana. A produção é muitas vezes processada usando métodos tradicionais conhecidos por salgado e seco.

Entretanto, estas razões, associadas às más práticas de higiene no manuseamento, processamento e conservação de pescado, certa parte da produção resulta em perdas pós-capturas.

Para solucionar este problema da pesca artesanal, o Ministério do Mar, Águas Interiores e Pescas, através do ProPESCA (Projecto de Promoção da Pesca Artesanal), procura através da disseminação incentivar os pescadores, comerciantes e consumidores às boas práticas que garantem a qualidade do pescado. A iniciativa, que visa garantir a saúde do consumidor, como também aumentar a renda dos praticantes desta actividade, conta com o financiamento do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (IFAD) e da União Europeia.

Higiene, técnicos e extensionistas

O projeto aqui analisado está a ter lugar na Província de Sofala no distrito de Dondo posto da localidade de Chinamacondo nos centros de pesca de Farol e Movisa, com o início em 2014, no âmbito do ProPESCA. Ainda em curso, a intervenção deve terminar em Março de 2018.

Foram envolvidos na experiência para além dos pescadores e comerciantes, o Sector da Pesca, o FIDA, Administração e Município locais. Contou com a seguinte parceria: Administração Nacional de Estradas, Electricidade de Moçambique, Fundo Nacional de Energias, Direcção das Obras Pública e Habitação, Fundo do Fomento a Pequena Indústria, Agência de Desenvolvimento de Manica, Governo Distrital de Dondo.      

Várias actividades foram desenvolvidas com vista a garantir melhorias na qualidade do pescado, diminuindo assim as perdas pós captura. Pois, importa realçar que, segundo o relatório anual 2013 de ex. IDPPE, o distrito de Dondo registou naquele ano perda de 3100 kg de pescado das 184.547 toneladas capturadas.

A área de estudo conta actualmente com 922 pescadores e 120 comerciantes de pescado, que são os principais beneficiário dessa intervenção.

Entre 2009 e 2015 foram capacitados dois técnicos e 14 extensionistas para melhor conduzir o processo da transferência de tecnologias de processamento e conservação do pescado em gelo às comunidades pesqueiras. Com a duração de oito a catorze dias, nesta capacitação ensinou-se o seguinte:

  • O peixe grande deve ser destripado a bordo ou em terra dependendo da situação, porque é nas tripas que estão concentradas as bactérias.
  • Deve-se usar o gelo em escama, porque cobre melhor a superfície do peixe, o gelo em barra deve ser muito bem partido.
  • Deve-se usar caixa isotérmica exclusivamente para o pescado. Esta evita contato direito com o sol, de forma a manter o gelo por longo tempo. Arruma-se o gelo com peixe de forma intercalada, sendo a primeira e última camadas de gelo. A proporção depende da estação do ano e a caixa deve ter dreno.
  • Neste processo, a higiene é fundamental: deve estar patente no lugar, na pessoa como nos recipientes.

Os benefícios para os beneficiários

Várias foram as atividades para dar visibilidade às vantagens das boas práticas de higiene no manuseio, processamento e conservação do pescado. Em 5 saídas à pesca, fez-se demonstração do uso de gelo abordo com embarcações melhoradas, envolvendo 16 pescadores.

Cinco capacitações em boas práticas de processamento do pescado usando gelo foram organizadas. A atividade envolveu 43 pescadores e comerciantes. Com duração de quatro dias cada, contou com teoria e prática e exibições de vídeos.

Até agora, o projeto promoveu 12 feiras de pescado, com audiência de aproximadamente 1400 pessoas. O objectivo não era apenas a venda do pescado, mas sim, a demonstração pelos comerciantes convidados da utilização do gelo na conservação do pescado no momento da venda ao público.

Mudanças levam tempo

Temos a certeza que as capacitações realizadas foram úteis, apesar do número reduzido de pescadores que investem nesta prática. O uso de gelo envolve custos diários e utilização de embarcações que oferecem condições para o efeito. Estes custos nem sempre são possíveis de se cobrir. Também a evisceração exige mudança de comportamento tanto do pescador quanto do consumidor, tudo isto leva tempo.

Bem por isso, ficamos felizes ao ver implementadas por três pescadores as técnicas de manuseamento, processamento e conservação do pescado usando gelo abordo. A perda pós captura reduziu a 96,6% comparado com o período antes da intervenção do projecto.

Conta-se actualmente com um comerciante e 61 pescadores que vendem o pescado fresco, dos quais dezenove utilizam caixa adequadas para conservação do produto. Na nossa convivência com a comunidade pesqueira, verificamos que poucos investem nas suas actividades, outros ainda usam dispositivos não adequados, alegando o elevado preço da caixa isotérmica.

Por se mais barato e prático, o gelo mais usado é em blocos de produção caseira ou fabril, partido em pedaços. Apesar da sua resistência, não permite a cobertura total da superfície do pescado quando comparado com o gelo em escama. O fato é que, na prática, este gelo não garante melhor conservação, dada a maneira que é aplicado (pedaços maiores e mal distribuido). Achamos nós que a ulitização deste gelo garante só em parte a qualidade do produto.

Notamos que 22 comerciantes destripam o pescado de maior tamanho. Esta técnica de conservação ainda não tem muita aderência. São várias as justificações dos comerciantes para não optarem nesta técnica, onde destacamos a perda do peso. Achamos nós que há falta de informação e tradição por parte do consumidor sobre esta prática.

Impacto das boas práticas na renda de pescadore e comerciantes

Observamos com agrado os comerciantes conquistando clientes com pescado de boa qualidade exposto durante as feiras. Com isto expandem seu negócio quer por número de clientes quer por mercados. Já 48 dos comerciante fornecem seus produtos a clientes fixos (restaurantes, estabelecimento de processamento, hotéis e singulares), encurtando a seu favor a cadeia de valor do pescado.

Durante a capacitação, o senhor Carlos Gomes, chamado carinhosamente Sr. Meno, trouxe-nos sua história de sucesso. Encorajadora para nós que procuramos transmitir à comunidade experiências de boas práticas do processamento do pescado por forma a melhorar suas vidas, a reproduzimos aqui.

Sr. Meno, iniciou em 2000 na Beira a venda de pescado num regime de venda ambulante porta a porta para clientes dos quais alguns tornaram-se fixos e outros não.

Disse ele, naquela altura não usava gelo “apenas um cesto de mitxeu de 20 kg bastava para compra do peixe e camarão e andar casa a casa a procura de clientes”.

Três anos depois, o proprietário de um estabelecimento de processamento de pescado o aconselhou a utilizar gelo. “Não foi fácil: o cesto não tinha como guardar gelo para não derreter, daí comprei uma caixa onde punha um plástico preto e conseguia manter por algum tempo o gelo e o produto mantinha-se fresco e conservado”.

Soubemos que Sr. Meno ganhou reputação no mercado e confiança dos pescadores o que lhe facilitava na aquisição do produto, visto que o número de clientes fixos aumentava. Nesta altura já movimentava valores altos e decidiu abrir uma conta bancária.

Em 2007 Sr. Meno explora outros mercados, tendo encontrado sucesso em Movisa onde até hoje trabalha e passou a vender apenas camarão. São os restaurantes e estabelecimento de processamento da cidade da Beira seus principais clientes.

Disse-nos que não precisa mais percorrer distâncias a procura de compradores porque logo que obtém o produto encaminha directamente aos clientes.

“Tenho muita sorte, às vezes adquiro 300 kg de camarão por dia e os meus clientes levam todo no mesmo dia. Só posso agradecer ao ProPESCA porque muita coisa que faço hoje aprendi nas capacitações. Vendo camarão e ponho gelo suficiente e todos meus clientes também exigem camarão bem fresco, não congelado e com a cabeça fixa.”

Visitamos sua casa para testemunharmos a melhoria de vida da sua família como resultado deste negócio. Observamos com satisfação a construção de uma habitação confortável de alvenaria, com electrificação e água canalizada.

O caso do Sr. Meno
O quê ajudou a comunidade?
O uso de embarcações melhoradas para a pesca em mar aberto. Por serem mais seguras, espaçosas, com motor a propulsão – poupando esforço e tempo do pescador consistem condição básica para a evolução da pesca artesanal.

Porém, a base de gestão de conhecimento é que possibilitou o sucesso da intervenção. Nos referimos à metodologia usada na transferência de tecnologia (demonstração prática, ilustração de imagens com realidade moçambicana, ilustração de vídeos com mensagens realísticas). Também muito contribuíram tanto o envolvimento das estruturas locais na mobilização da comunidade quanto a alocação de extensionista localmente, facilitando a sensibilização regular.

Apesar dos avanços registados ainda sentimos que existem desafios a serem ultrapassados, começando pela infraestrutura local, como vias de acesso degradadas, que por vezes tornam-se intransitável no período chuvoso, sem se falar nas viaturas não adequadas para o transporte de pescado. A falta de eletricidade e de fábricas de produção de gelo localmente dificultam a persuasão dos pescadores e comerciantes.

Ainda se observa o uso massivo de embarcações pequenas, feitas de troncos escavados, que não permitem o uso de gelo abordo; fator que se vê agravado pela pouca exigência na qualidade do produto por parte da maioria dos consumidores. Este ciclo vicioso condiciona fraco empenho dos pescadores e comerciantes na implementação das boas práticas. Ainda por cima, o elevado custo de aquisição de caixa isotérmica acaba condicionando o uso de alternativas inadequadas.

Mudanças de comportamento num mundo a mudar

Com a implementação das boas práticas para a valorização do pescado no âmbito do ProPESCA constatamos que é possível reduzir a perda pós-captura em mais de 90% com o uso de gelo a bordo e a evisceração de peixes grandes. O número reduzido de pescadores utilizando as práticas difundidas pela intervenção deve-se sobre tudo a resistência a mudança comportamental dos pescadores. Incapazes de bancar com o investimento necessário, esconde-se por vezes em desculpas além de si, como nos hábitos do consumidor.

Fato é que o consumidor joga, sim, um papel importante na implementação das boas prática. Muitos pescadores e comerciantes encontraram acesso a clientes exigentes, que se tornaram fixos, exatamente por oferecer qualidade alta e constante. Obsevamos também que os comerciantes e pescadores que hoje destripam o peixe grande e possuem caixa isotérmica conseguiram diminuir as perdas e aumentar tempo para outras tarefas. Depois dos comerciantes adquirem seu produto com o pescador, têm onde ou a quem entregar, sem precisarem ficar na banca do mercado. Com isso combinam todos a pesca com a machamba, aumentando rendimentos e qualidade de vida.

Mudança de comportamento custa tempo, pois mexe com hábitos culturais. Assim, as mulheres que hoje se dedicam à pesca artesanal precisam conquistar seu espaço neste mundo a mudar.

Destas conclusões e para alcançarmos melhores resultados, recomendamos inicialmente ao sector das Pescas, Governo e parceiros que continuem a incentivar o uso de embarcações melhoradas (pois possibilitam a utilização do gelo a bordo).

Também ao governo a tarefa de melhorar as vias de acesso e instalem rede eléctrica e fábrica de gelo semi-industrial produzido com energia renovável e – através do sector de Indústria e Comércio e Saúde – que fiscalizem o produto pesqueiro nas bancas do mercado.

Quanto aos comerciantes, que continuem usando gelo, desde que em quantidades suficientes, e caixas isotérmicas, além de que destripem todo peixe com tamanho considerável para o efeito. Destripar vale acima de tudo para os pescadores.

Aos beneficiários: que adiram aos fundos especiais para mulheres e negócios emergentes para aquisição de caixas adequados para o processamento e conservação de pescado.

Por fim, recomendamos aos consumidores que sejam exigentes na compra de pescado.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

  1. Manual de censo da pesca artesanal 2012, P.54,
  2. Manual de implementação do projecto ProPESCA, P. 4
  3. Relatório do balanço anual 2016, Direccção Provincial do Mar Águas Interiores e Pesca.
  4. Relatório anual 2013, Instituto de Desenvolvimento de Pesca de Pequena Escala - Delegação da Beira.
  5. Relatório sobre captura 2013 do IIP.

Mapa de localização dos centros de pesca de Farol e Movisa, com as seguintes coordenadas: Farol 19 64 83 S 35 18 13 89 E; Movisa 19 66 78 S 35 15 003 E. Autor Jose Mpango, topografo, engenheiro civil.

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