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Receitas para o Desenvolvimento

Press review

Monday, 20 November 2017

by Mirza Lobo and Carla da Estrela P. Mahumane

Com as feiras e demonstrações simulou-se o que é possível executar em casa, com os alimentos disponíveis e/ou fáceis de serem produzidos no próprio quintal ou na machamba. Com efeito, depois das aulas se nota uma mudança de atitude, tanto na diversificação do cardápio como no número crescente de hortas caseiras. E estes são só dois exemplos.

Com a criação do Ministério da Agricultura e Segurança Alimentar, a responsabilidade de oferecer educação nutricional veio a cair no Direção Nacional de Extensão Agrária.[1]

A integração do Serviço Agricultura e Nutrição nos serviços de Extensão tem como fins promover a produção, processamento, a utilização e venda de alimentos nutricionalmente adequados e localmente disponíveis. A disseminação de tecnologias apropriadas para os produtores é feita através das Escolas na Machamba do Camponês (EMCs), Escolas Primárias e Secundárias, associações de produtores e parceiros.

Para concretizar tais propósitos, iniciou-se um esquema de capacitação em segurança alimentar em forma de cascata, dos técnicos da Direção nacional até os beneficiários. No caso desta experiência, são estes: produtores, professores e alunos ligados às Escolas na Machamba. Incluímos também grupos especiais, estes compostos por raparigas adolescentes, mulheres grávidas, pessoas vivendo com o HIV e SIDA e crianças menores de 2 anos.

Esta capacitação tem como objectivo principal a mudança de comportamento dos beneficiários, visando a redução dos índices de insegurança alimentar, a redução da desnutrição crónica através da melhoraria da dieta dos produtores e suas famílias.

Fazendo das cozinhas salas de aula

A cobertura de intervenção desta actividade é de nível nacional com vista a abranger todo o universo de produtores. Numa primeira fase a experiência está sendo implementada de forma progressiva nos quarenta e dois distritos cobertos pelo Projecto de Apoio ao Programa Nacional de Extensão Agrária (PSP- PRONEA), este financiado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA).

São atores desta experiência: a Direcção Nacional de Extensão Agrária (DNEA), os Serviços Provinciais de Extensão Agrária (SPER), o Serviço Distrital de Actividades Económicas (SDAE), assim como produtores, professores, alunos e elementos dos grupos especiais ligados à Escola na Machamba do Camponês. Os parceiros consistem no FIDA, FAO (órgão financiador das Escolas) e o Programa de Mercados Rurais (PROMER).

As intervenções de Segurança Alimentar e Nutricional são focalizadas para a capacitação, demonstrações de boas práticas de nutrição comunitária e para a comunicação. Para a efectividade desta intervenção foram realizadas, em esquema de catarata, as actividades descritas abaixo. Também uma avaliação a meio termo fez parte do desenho da intervenção.

O Departamento Nacional de Extensão Agrária iniciou com a capacitação de técnicos da Direcção Nacional. A seguir, capacitou técnicos dos Serviços Provinciais de Extensão, que são os pontos focais de segurança alimentar e nutricional. No total, efectivou-se a capacitação de 20 técnicos a nível central e provincial em educação alimentar e nutricional.

Fig. Formação de extensionistas e produtores

Depois de ter atingido estas duas camadas institucionais, os técnicos dos Serviços Nacional e Provincial de Extensão Agrícola começaram a ir para as províncias de Gaza, Inhambane, Zambézia, Nampula, Niassa e Cabo Delgado. A nível distrital nestas províncias, persuadiram os extensionistas e os produtores das Escolas na Machamba do Camponês sobre a importância de produzir e consumir os alimentos diversificados com vista a melhorar a dieta alimentar e gerar renda.

A capacitação de agentes de extensão ligados a projetos não beneficiados pelo financiamento do FIDA sobre a preparação dos alimentos, processamento, confeccionamento e consumo de dietas alimentares nutricionalmente adequadas foi o passo subsequente.

Completo o processo de capacitação, o esquema de Educação Nutricional investiu em outras intervenções complementares, enumeradas a seguir.

Demonstrações sobre práticas alimentares adequadas nas comunidades, onde os produtores aprendem a preparar os seus alimentos de várias formas, usando produtos existentes nas suas machambas. Confeccionar alimentos mais saborosos e convidativos ou atraentes para as crianças também era parte do objetivo.

Durante as práticas culinárias, são preparados alimentos tais como: papas enriquecidas de arroz com leite de coco, de farinha de milho com cenoura/ moranga, ovo; bolo de farinha de mandioca, chips de banana.

Ensina-se a conservação de hortaliças tais como: folhas de feijão, abobora, mandioca, couve e a de carnes, além da conservação peixe usando o sal e o fumo.

Só de batata-doce de polpa alaranjada pode-se fazer: sumo, bolo e biscoito, chips, puré com amendoim ou castanha torrada e pilada, além guisado das folhas.

Introdução de hortas caseiras, estimulando-se a produção de uma variedade de hortícolas diversificadas[2] e fruteiras, além da criação de animais de pequeno porte como galinhas e patos.

As intervenções de Segurança Alimentar e Nutricional que são direccionadas para os grupos especiais são feitas com os membros do agregado familiar dos elementos destes grupos. Têm como porta de entrada as associações dos produtores, as Escolas na Machamba do Camponês e os grupos de produtores.

Chips de batata

Chips de batata

Fig. Chips de Batata-doce de polpa alaranja e papa de farinha de milho enriquecida

Produção de material de comunicação tais como Manual, álbuns seriados, folhetos, cartazes e camisetas. Estes materiais foram elaborados pelo Consultor de Nutrição da FAO e pelos técnicos da DNEA envolvidos nestas actividades.

Com a finalidade de servir como material de auxílio e consulta, estes materiais foram distribuídos e lidos pelos Pontos focais de nutrição, os Extensionistas e produtores que se beneficiaram da formação. Também as receitas preparadas são publicadas para atingir o maior número possível de beneficiários.

A realização de feiras sobre nutrição ajuda a promover a utilização e comercialização de receitas melhoradas com alimentos localmente disponíveis. Estas feiras foram realizadas na Província de Gaza e de Nampula.

Diversificação para aceleração

Esperava-se que esta abordagem de trabalho permitisse a transferência sólida e relativamente rápida dos conhecimentos e das habilidades em torno de Segurança Alimentar e Nutricional do nível central para os serviços provinciais de extensão, também como para os extensionistas e produtores ao nível local. Observa-se hoje que a intervenção de fato contribuiu para a melhoria dos hábitos alimentares dos produtores e os membros do seu agregado familiar, garantindo assim a melhoria do estado nutricional das populações rurais. A avaliação a meio termo da intervenção indicou os ajustes desejáveis, com a vantagem de ainda haver tempo para estes serem implementados.

Formando-se mais extensionistas e produtores de outros distritos e ou comunidades, de outras Escolas na Machamba do Camponês foi possível alargar o numero de produtores formados em matérias de segurança alimentar. Com a capacitação de outras Escolas na Machamba de Camponês está sendo possível aumentar o número de produtores formados. A réplica na implementação do projeto veio a acelerar a obtenção dos resultados esperados.

Para a mudança de comportamento, os produtores foram sensibilizados em matérias como a inclusão de novos alimentos na dieta alimentar através do cultivo de culturas diversificadas bem como através da introdução de hortas caseiras e da criação de animais de pequeno porte.

Fig. Preparação de folhas de batata doce de polpa alaranjada.

A diversificação do cardápio diário foi em parte consequência da introdução de horta caseira.

A demonstração culinária teve seu impacto ampliado por ocorrer simultaneamente à capacitação nas comunidades, unindo teoria à prática. Como disse uma produtora: “Tenho isso em casa, mas não como. Não sabia.”

Ainda assim, persiste a necessidade da sensibilização das comunidades quando falamos da inclusão da proteína animal na dieta. Mesmo os produtores que criam patos e galinhas só os comem em dias de festa. Continuamos a recomendar aos produtores que comam estes produtos uma vez a outra e não só em dias festivos.

Em termos institucionais, os fatores limitantes observados foram o atraso na alocação de fundos para o desenvolvimento das actividades e a cobertura. O projeto só cobriu 42 distritos, dos 1.420 distritos em Moçambique.

O sistema de cascata foi usado exatamente devido ao número reduzido de agentes em relação ao de produtores.

Com a integração das intervenções de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) nos serviços de extensão agrária, o Ministério da Agricultura e Segurança Alimentar espera contribuir para a redução do índice de insegurança alimentar de 24% em 2015 até 16% em 2019 e para a redução da desnutrição crónica de 43% para 35% em 2019.

Distribuamos a receita

As intervenções de Segurança Alimentar e Nutricional do Departamento Nacional de Extensão e Agricultura aos grupos especiais provaram efectivas e permitiram deste modo acelerar a redução da problemática da desnutrição crónica no país.

Escolher as Escolas na Machamba aumentou a eficiência da intervenção, replicando – como desejado – os benefícios da diversificação alimentar. Ter incluído os serviços de extensão dos distritos do país não cobertos pelo projecto também influenciou a intervenção de forma positiva.

Com as feiras e demonstrações simulou-se o que é possível executar em casa, com os alimentos disponíveis e/ou fáceis de serem produzidos no próprio quintal ou na machamba.

Com efeito, depois das aulas se nota uma mudança de atitude, tanto na diversificação do cardápio como no número crescente de hortas caseiras.

Querendo o governo a sustentabilidade destas mudanças, é necessário que invista no monitoramento do trabalho dos extensionistas e dos produtores já capacitados e avalie periodicamente projectos semelhantes. Porém só isto não basta.

A expansão deste modelo exige o aumento do número de capacitação institucional e dos indivíduos dos grupos especiais e seus agregados, com enfâse na expansão do número de Escolas na Machamba do Camponês beneficiadas.

Por sua vez, é essencial que as Escolas que hoje contam com o apoio da FAO e/ou de outros parceiros deem continuidade às actividades educativas.

Para a divulgação das boas práticas, aconselhamos que as instituições e parceiros invistam em atividades de comunicação provadamente efetivas, como centros de demonstrações culinárias móveis em todo o país – com distribuição de receitas. A realização de feiras sobre nutrição em todo o país também possibilita que se atinja grande parte dos beneficiários.

Todas as fotos são de autoria de Mirza Lobo

[1] O MASA reconhece que a Agricultura joga um papel importante na disponibilização de alimentos nutricionalmente ricos que contribuem para a melhoria da qualidade da dieta, a redução da insegurança alimentar e nutricional e a prevenção da ocorrência de bolsas de insegurança alimentar e desnutrição crónica no País. E, havendo a necessidade de operacionalizar as atribuições e competências do MASA no que tange à Segurança Alimentar (SA), foi-se proposto que a Direcção Nacional de Extensão Agrária (DNEA) através dos Serviços Unificado da Extensão (SUE) e do Sistema Nacional de Extensão (SISNE) criasse as condições para se implementar as intervenções de Segurança Alimentar - SAN.

[2] Neste caso em vez do agricultor produzir só o milho na sua machamba, ele passa a produzir no seu quintal ou mesmo na sua machamba outras culturas como a rama de batata-doce, couve, folhas de mandioqueira, folhas de abobora.

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